AMAR DÓI AMAR
Cansei de amar
Quero ser amado.
Não quero estar no mapa
Quero ser encontrado.
Se o coração está seco
De nada adianta beijo molhado.
Grande coisa um belo olhar
Se você não é notado.
Amar é sofrer
Ser amado... nem dói.
Que chorem pelos cantos
Como já chorei.
Ou se quiserem que façam promessas
aos santos, ao papa, ao pastor,
e até a Deus se quiserem, que eu nem ligo
- amar já não me interessa.
Olhei demais pela janela
Agora só quero só olhar para o meu umbigo.
Também não quero amor de mentirinha
Quero que amem de verdade
Assim como Romeu amou Julieta,
De tomar veneno e tudo.
mas já vou logo avisando:
veneno eu não tomo. Só cerveja.
Pois é, acordei com preguiça de amar
E disposição para ser amado.
Se alguém quiser, bem. Senão, bem também.
Quem me amar, que não me mande bilhetes,
Quero cartas de amor chorosas
Cheirando perfumes indecentes.
Bom, já disse, amar não amo mais.
Nem percam tempo comigo
Que é andar para trás.
Quem me quiser
Tem que saber dar de comer, pois:
Quero estrelas no café
Bolinhos de fogo no almoço
E lábios fartos no jantar.
Não vou levar ninguém no colo.
O máximo que posso fazer
É dar saliva na boquinha,
Pentear sobrancelhas e fazer cosquinhas na virilha.
De resto, ficar esperando pelo gozo
Sem ter trabalhado.
Sempre amei, nunca fui amado
Ser amado é melhor que amar? Não sei.
Mas foi assim que disse um poeta abandonado.
Sergio Vaz
*do livro "#floresdealvenaria Global Editora
E a Literatura vem se modificando ao longo do tempo....uma nova vertente surge para dar voz aqueles que estão as margens da sociedade.
A LITERATURA MARGINAL BRASILEIRA
Do livro 85 Letras e um Disparo!
Sacolinha
Cheguei cedo naquele dia.
As contas já estavam atrasadas e a geladeira, vazia, há
muito vinha pedindo alimento.
Precisava vender no mínimo uns quatro exemplares do meu
novo romance.
Desembarquei no metrô Consolação às 20h. Segui sentido
metrô Brigadeiro.
No caminho ia parando nos botecos e, com um jeito educado
e brincalhão, sentava nas mesas e oferecia o exemplar: um “não” aqui, outro
“não” ali... Nada de errado, o começo é assim mesmo.
Cheguei ao final da avenida Paulista. Passei para o lado
contrário. Bom, pelo menos ali haviam duas universidades; poderia rolar algumas
vendas. Estudantes instruídos, adeptos da leitura, acostumados a comprar livros
de alto custo... Era o lugar certo.
Na primeira universidade os estudantes estavam em
intervalo; alguns conversavam sentados no escadão, outros namoravam em frente à
lanchonete.
Ensaiei algumas palavras e rumei para o escadão.
Trinta abordagens.
O resultado foi a minha saída de cabeça baixa daquele
recinto. E, se elogio fosse dinheiro, sairia dali de bolso cheio.
A fome começou a roçar o meu estômago. Só haviam dez
reais na carteira e com isso eu não conseguiria comer nem o churrasco vendido
na calçada, já que o ditado capitalista diz: “Quem anda pela Paulista é quem
tem dinheiro”.
Pobre de mim.
Passando em frente à segunda universidade, abordo três
estudantes. Apenas um deles me dá atenção, enquanto os outros dois se entretém
tirando fotos com o celular.
Depois de ler a orelha do livro, o rapaz de voz efeminada
agradece e diz que está sem dinheiro:
- Nós somos estudantes camarada; estudante não tem grana.
Saí resmungando: “Não têm dinheiro, mas ficam trocando
fotos entre os celulares”.
Continuei curtindo caminhada até o início da avenida,
onde hoje está o Cine Belas Artes.
Entrei num bar e fui até o banheiro esvaziar a bexiga. Na
saída fiquei paquerando uma empada toda murcha e cheia de rugas.
Não podia gastar o pouco que tinha no bolso e, se fosse
pra comer alguma coisa, que comesse mais tarde, na hora em que não desse mais
para continuar de pé. Qualquer bolacha dá pra enganar o estômago.
Uma nova abordagem:
- Licença e boa noite. Podem contar no relógio, não irá
passar de um minuto. Eu não quero encher o saco de vocês (...)
Criar
Academias gigantes, livrarias escassas
Fortes carcaças, mentes opacas
Placas colocadas por gente explorada
Seguindo o ritmo, fudendo a massa
A ameaça é real e não é fantasma
Crio ficção por desespero e quase de graça
Conscientizar quem não quer mudança
Prejudicar o próximo dirigir a manada
A vida é um blefe que nunca se acaba
Acaba-se uma, outra é vasta
Pobreza espiritual, conversa fiada
Foda-se o pedestre, união uma farsa
Quem dirige não faz jus a palavra
O melhor remédio nem sempre sara
Ostentação matando a humildade conquistada
Ou se tem ou não quem sabe de nada
Difícil missão quem quer melhoria pra raça.
ameaça fantasma, povo em desgraça
palavra arma, feto na faca
pra que tudo de graça se o preço não se paga
uma só voz na praça
dizimado por ser da cor raça
filho da dor recém nascido na estaca
vive devendo e nunca a felicidade se paga
não vivem sem, mas não tem notas na casa
o valor do dinheiro que classifica e disfarça
em toda revolução tem que ter ameaça
muita festa é final de caminhada
vamos as frases, estralar a caneta na estrada
pra construir a nova caminhada
onde o futuro não seja só
uma simples palavra.
Ferréz
Parte integrante do livro "Datilógrafo do gueto" que sai em 2017.
Sobre a Literatura e seus
valores morais: Antônio Candido aponta para o fato de a literatura não se
reduzir aos valores morais que são impostos a ela e através dela: A literatura
pode formar; mas não segundo a norma oficial, que costuma vê-la ideologicamente
como um veículo da tríade famosa, - o Verdadeiro, o Bom, o Belo, definidos
conforme os interesses dos grupos dominantes, para reforço da sua concepção de
vida. Longe de ser um apêndice da instrução moral e cívica (...), ela age com o
impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela, com altos e baixos,
luzes e sombras. (...) Dado que a literatura, como a vida, ensina na medida em
que atua com toda a sua gama, é artificial querer que ela funcione como os
manuais de virtude e boa conduta. (CANDIDO, 1972, p.805).




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